Amanda, titular da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher de Cametá, no Pará, usou suas redes para se solidarizar com a mãe das crianças de Itumbiara. O caso envolve o então secretário municipal Thales Machado, que tirou a vida dos próprios filhos após uma crise no casamento. A notícia rapidamente ganhou repercussão nacional e, como costuma acontecer, os comentários vieram na mesma velocidade.
No vídeo, visivelmente emocionada, Amanda começou com algo simples, mas essencial: solidariedade. “Quero expressar aqui, primeiramente, a minha solidariedade à mãe dessas crianças”, disse. Em seguida, deixou claro o que mais a incomodava naquele momento. Não era apenas o fato em si, já doloroso demais. Era o julgamento público direcionado à mulher, que passou a ser alvo de críticas por uma suposta traição.
A delegada foi direta. Classificou como absurda e desumana a tentativa de responsabilizar a mãe pelo que aconteceu. Segundo ela, esse tipo de comentário não ajuda em nada. Pelo contrário, reforça uma cultura de culpa que, muitas vezes, recai sempre sobre a mulher, mesmo quando ela também é vítima da situação.
A fala de Amanda carrega um peso que vai além da função que ocupa. Em 2023, ela viveu algo semelhante. Seu ex-marido, inconformado com o fim do relacionamento, matou os dois filhos do casal, Marcelo, de 12 anos, e Letícia, de 9, antes de tirar a própria vida. Não é uma lembrança distante. É uma ferida que ainda dói.
Talvez por isso o pedido final dela tenha sido tão firme: mais empatia. “Vamos ter mais empatia”, disse, alertando que comentários cruéis acabam legitimando discursos perigosos. Não se trata de debate moral sobre relacionamento. Trata-se de vidas interrompidas e de famílias destruídas.
O caso de Itumbiara também trouxe à tona outro ponto delicado: a exposição nas redes sociais. Antes do ocorrido, Thales publicou uma carta de despedida, mencionando dificuldades no casamento e pedindo desculpas. Em poucos minutos, a mensagem já circulava em grupos de WhatsApp e páginas de notícias. O julgamento começou antes mesmo de qualquer investigação ser concluída.
Enquanto isso, a cidade tenta lidar com o luto. O filho mais velho chegou a ser levado ao Hospital Municipal Modesto de Carvalho, mas não resistiu. O mais novo também não sobreviveu. O velório ocorreu de forma reservada, na casa do avô materno e prefeito da cidade, Dione Araújo.
É impossível não sentir o peso dessa história. E talvez seja justamente aí que mora o ponto central do desabafo da delegada: antes de comentar, é preciso lembrar que existem pessoas reais por trás das manchetes. Mães, pais, avós, irmãos. Gente que vai conviver para sempre com a ausência.
Em tempos de redes sociais aceleradas e opiniões instantâneas, a fala de Amanda soa como um freio necessário. Menos julgamento. Mais responsabilidade. E, acima de tudo, humanidade.